Ruas arborizadas, folhas de outono no asfalto e uma calma que parece alheia ao ritmo da cidade. No Barrio Parque, aquele enclave de mansões baixas e estilos de vida discretos onde o tempo parece passar mais devagar do que no resto de Buenos Aires, a chegada de um novo vizinho pode fazer pender a balança. Mas não foi assim. Nem o nome Peter Thiel nem o tamanho do negócio imobiliário que o tornou morador do bairro parecem ter incomodado quem mora lá. Pelo contrário, exatamente o oposto.
A casa, que fica na rua Dardo Rocha, em frente à residência de Susana Jimenez, foi comprada por aprox. 12 milhões de dólares. Ou seja, segundo especialistas do mercado imobiliário, é muito superior ao valor de mercado atual, se compararmos com outros imóveis da zona determinada. Thiel não é apenas mais um comprador. Cofundou o PayPal com Elon Musk e foi um dos primeiros investidores no Facebook e o nome dele é um dos outros influenciadores Vale do Silício.
O surgimento de um personagem tão perturbador no meio de um quarteirão tão tranquilo teria causado alvoroço. Também seria correto pensar que agora haverá guarda de jornalistas ou celulares de segurança nessas ruas. Porém, longe de causar insatisfação, a compra de Thiel foi recebida positivamente pelos vizinhos. eles afirmam isso. aumenta o custo por metro quadrado num distrito onde a oferta é escassa.
Não há exibições incomuns na porta. Um Mercedes-Benz classe S preto estacionado, uma carrinha da mesma marca alguns metros atrás e dois guardas que passam despercebidos juntam-se aos postos de controlo regulares da Polícia Municipal, que são financiados pelos próprios vizinhos. “Aqui já se paga uma taxa adicional pela maior presença da polícia”, descrevem quem mora lá.
“Há disputas sobre muitas coisas neste distrito, mas não sobre isto”, resume o conhecido advogado e vizinho. Maurício D’Alessandroque mora naquele mesmo bairro há décadas e conhece cada cantinho. “Não ouvi ninguém chateado com a chegada de Thiel. Sim, há debates sobre licenças, sobre negócios, sobre como o bairro é mantido. Mas não é por isso”, afirma, acrescentando. “Estamos falando de um empresário global, uma das grandes riquezas do mundo. Aumenta automaticamente o valor do bairro.
D’Alessandro acrescenta uma imagem que ajuda a esclarecer o que significa ter uma figura como Thiel no bairro: “Tenho filhos que vivem nos Estados Unidos. Se quisessem viver num ambiente como o de Thiel, precisariam de números astronómicos que estão completamente fora de alcance.”
Teresa, moradora do Bairro Parque que prefere não divulgar o sobrenome, concorda.O perfil baixo é sempre apreciado aqui, mas o nível também. E a chegada de alguém assim, longe de incomodar, confirma que o bairro continua a ser o que é. Não é uma exposição, está em harmonia com o lugar”, finaliza, fazendo seu passeio diário, que geralmente termina com um café no bar do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba).
Candelaria, cujos pais moram no Bairro Parque, acrescenta sua perspectiva sobre a chegada do novo vizinho: “Isso não muda a dinâmica do dia a dia. há uma sensação de que o bairro está ganhando relevânciaÉ como se eu estivesse de volta ao radar mundial.”
Ignácio CampsMorador e sócio do Barrio Parque Desenvolver imóveistambém vê a operação como um marco imobiliário. “É um preço de venda bastante razoável e para muitos vizinhos pode ser um bom sinal. Mostra que o seu imóvel tem um elevado potencial de valorização”, explica. Segundo ele: Nos últimos cinco anos, venderam cerca de sete ou oito casas na zonaque apresenta alguma circulação, embora sempre com oferta limitada num mercado altamente exclusivo.
Até quem trabalha na área sente o mesmo relaxamento. Mário, operário que trabalha numa obra a poucos metros de distância, resume assim: “Às vezes tem um pouco mais de trânsito, mais alguns carros, mas no geral é sempre tranquilo. É onde acontece muita coisa. E isso não mudou. Eu o vi quando ele chegou, mas estava tudo bem.
Os dados não são triviais. Porque se alguma coisa define o Barrio Parque é isso esforços contínuos dos vizinhos para preservar a essênciaUma zona residencial tranquila e de baixa densidade onde casas, embaixadas e jardins são um mundo à parte.
Há alguns meses, essa identidade voltou a ficar clara quando Justiça de Buenos Aires suspendeu novas licenças comerciais na área com base em denúncia de bairro. O debate aumentou depois que os moradores descobriram um projeto de centro de saúde de luxo em uma de suas ruas mais tranquilas. Para muitos, não se tratava de se opor a atividades específicas, mas de evitar que o bairro perdesse o seu caráter histórico, patrimonial e residencial.
O aviso foi lido como um sinal claro. O Barrio Parque aceita novos vizinhos, mesmo os mais sofisticados, mas não qualquer transformação no seu dia a dia. Nesse contexto, a chegada de Thiel é interpretada de forma diferente. Não abre negócios, não atrai trânsito nem altera o ritmo das ruas. É uma presença privada integrada na lógica do lugar. Por esta razão, a leitura dominante entre os vizinhos parece ser positiva. Os enclaves residenciais mais desejados de Buenos Aires.
Peter Thiel é uma das figuras mais influentes e também mais controversas do capitalismo tecnológico moderno. Depois de se tornar um dos primeiros investidores no Facebook e co-fundar o PayPal, ele construiu um patrimônio líquido de cerca de US $ 27.000 milhões. Ele também é cofundador Palantir Technologiesuma empresa especializada em análise de dados que trabalha governos, agências de inteligência e organizações de defesa.
Seu perfil transcende o mundo da tecnologia. Thiel tinha um papel ativo na política americana e foi Um dos adereços mais visíveis de Donald Trump no ecossistema do Vale do Silício. Seu nome passou a ser associado a uma corrente mais ideológica da indústria tecnológica que se concentrava na segurança, na defesa e no poder do Estado.
Por meio da Palantir, Thiel também mantém vínculos com agências governamentais dos EUA e entidades próximas a ela Pentágonoo que o coloca numa posição única: é um empresário que participa não só no desenvolvimento tecnológico, mas também na sua aplicação em áreas sensíveis como inteligência e defesa.
Sua chegada à Argentina não é acidental. Nos últimos anos, ele estabeleceu laços com o presidente Javier Miley e participou de reuniões onde enfatizou a projeção global de suas ideias. Durante a sua estadia, reuniu-se com responsáveis e actores do mundo empresarial com uma agenda que combinava negócios, política e tecnologia.
Neste quadro, comprar um imóvel no Bairro Parque parece ir além de uma visita casual. É também um sinal de interesse sustentado.