Quanto custa Areco em Don Segundo? Quanto resta de Don Segundo em Areco? Quem deu à luz quem; literatura gaúcha ou vice-versa?
Torcer esse pino não é tarefa fácil. Menos ainda quando alguém habilmente se encarregou de amarrá-lo para sempre. Seu nome é Ricardo Giraldez.
Don Segundo Ramírez era um homem de carne e osso: pastor, manso, analfabeto, homem de mãos grandes, casado duas vezes. Alguns relatos acrescentam que ele era descendente de africanos. Na aparência, um compatriota entre muitos. Na verdade, hummus fabuloso. “Hummus”, que significa “solo” ou “solo”, e evoca termos como humilde e humano, pode nos dar uma pista sobre a origem do mito.
Mas voltemos a Ramirez. um homem pacífico, com leve travessura, como muitos compatriotas de nossas planícies. Ele veio para Areco de outras regiões, de San Pedro, talvez de mais longe. Hoje, diversas cidades reivindicam seu local de nascimento e trazem vários papiros como prova, mas a verdade, além de seu local de nascimento, é que ele era um gaúcho e como tal um andarilho, um andarilho “livre”.
Sabemos que ele era trabalhador, pastor e trabalhador. Sabemos que ele entrava e saía dos campos como quem respira. Onde quer que houvesse conchabo, ele chegava perto. Nada de extraordinário. Ou sim. Tudo. Giraldes viu. Ou melhor ainda, ele reconheceu.
E nesse gesto, meio olhar e meio ficção, nasceu Dom Segundo Sombra. Não como cópia, mas como condensação. Não como um homem, mas como todo mundo. Todos os gaúchos que Giraldez conseguiu conhecer, bem como outros de quem teve notícias.
O romance, que alguns também identificam como poema, foi publicado em 1926. Surgiu quando o gaúcho não era mais uma ameaça. Ele não está mais fugindo da lei como Fierro, não é mais um homem sem salário e sem empregador; aos poucos ele se torna um símbolo. Modo de ser, ética. A palavra gaúcho está até virando cucarda, quando até recentemente era um insulto.
Giraldez acompanha esta evolução. Em Fabio Cáceres, o narrador, o aprendizado está codificado: não apenas trabalho, mas uma forma de ver o mundo e de ser: lealdade, abstinência, apenas silêncio. Don Segundo ensina sem explicar, com o corpo, com o gesto, com a distância.
Mas esta história inclui outra história mais íntima. Durante os anos em que escrevia, Giraldez foi acometido da doença de Hodgkin, um tipo de câncer do sistema linfático, caracterizado por um cansaço terrível e uma consciência cada vez mais iminente da morte. O livro é escrito naquela tensão entre a vida que sai e a figura que surge. Don Segundo é o que Giraldes aspira ser: autodomínio e compostura. Já Fábio é o que ainda é: impulso, aprendizado, ferida. Duas faces da mesma moeda, num romance que não é apenas um retrato do mundo rural, mas também uma transição para a própria morte do narrador.
E se olharmos para Areco e pudermos olhar através do gesto de Giraldez, veremos que há imagens que ainda sobrevivem; um camponês encostado num balcão brilhante, um homem contando com um copinho, o som dos cascos do pingo batendo no asfalto, a grama crescendo no tijolo, e que nunca demonstra respeito no tijolo, e que nunca demonstra respeito. podada, faca cruzada visível na cintura… Como se a Argentina gaúcha coubesse naquela cidade.
Giraldes acabou morrendo em Paris em 1927 e foi trazido de volta. Don Segundo o acompanhou em sua viagem. O herói removeu o autor. Giraldes morreu e nasceu um mito que Areco ainda mantém e circula. A cidade real e a cidade imaginada já não são completamente diferentes. Talvez eles nunca tenham se destacado.
Areco teve a sorte de ter Giraldes e teve o dom de ver, sentir e contar. Mas é preciso dizer que a cidade sortuda tem uma qualidade difícil de alcançar: manter o gaúcho errante num só lugar, como se assumisse o destino indicado por Giraldez. Afinal, o verdadeiro Areko é uma ficção poética da realidade.
*Juan Pablo é um cronista, pesquisador e historiador balinês. Dirige o Arquivo Visual da Argentina, uma comunidade de profissionais que busca construir pontes entre arquivos e divulgação. Ele também é um dos pesquisadores de história da família mais requisitados na Argentina, graças ao seu rigor combinado com uma narrativa envolvente e poderosa. Seu último livro se intitula Compatriotas, Gaúchos, Povos Indígenas e Gringos com o País Archivovisualargentino@gmail.com.