O rei do Brasil que finalmente se despediu de Buenos Aires

O rei do Brasil que finalmente se despediu de Buenos Aires

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Rei do tempo. Turnê de despedida Gilberto Gil. MúsicosRaphael Dragaud (diretor artístico), Bem Gil e José Gil (diretor musical), João Gil (guitarra e baixo), Nara Gil (vocal), Maria Pincusfeld (vocal), Diego Gomez (dinheiro), Thiago Oliveira (diretor), Marlon Seth (dinheiro), Danilo Andradeista (dinheiro), Danilo Andradeoncus (vocal) Dalva (bateria), Mestrinho (acordeão) e quarteto de cordas Sala e função. Quarta-feira, 11 de março, na Movistar Arena. Nossa opinião. Muito bom.

Subo até este palco e minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê. / A minha aura pura, só o clarividente a vê / Trago a minha banda, só quem sabe onde está Luanda saberá apreciá-la / Vale o que pesa para quem aprecia, o som louco do tambor.

Se não houver correspondências, isso faz parte dessa regra. Não é por acaso que “Palco” foi tocado na abertura deste concerto que Gilberto Gil veio a Buenos Aires. Em espanhol, palco significa palco, e a música conta o que acontece com o personagem principal toda vez que ele pisa em um deles e fica diante de uma plateia. E o que diz a lenda é que Gill escreveu e lançou em seu álbum de 1981 Fora pensando que não tinha nada de novo para oferecer. E, talvez, tenha sido uma espécie de retiro, a sua forma de desistir da música.

Gilberto, o gigante da música brasileira, que se despede dos palcos@simon_canedo:

Quase 45 anos se passaram desde então, e o público pôde desfrutar de um artista plenamente amadurecido em estilo, inspiração e ideias. E embora muitos (provavelmente a maioria de seus fãs) se lembrem dos títulos mais afetuosos de “Toda menina bahiana” (aquela que ele reservou como encore do show), o fato artístico que preenche Gil é justamente a soma de todas as experiências. A força de sua juventude, seu toque iconográfico tropical, sua parceria com os colegas mais talentosos do Brasil e as horas de voo que fizeram dele um homem da cultura de seu país com mentalidade política e social; crítico.

Porque, em suma, o seu trabalho vai desde melodias cativantes e batidas animadas que o encorajam a mover o pé ou mesmo a dançar, até à reflexão que transforma a canção em arte política sem os gestos óbvios de uma canção ou panfleto testemunhal.

Minutos antes de ele começar uma música descrevendo sua experiência no palco, às 9 horas, o público o cumprimentou com os braços erguidos e aplaudiu de pé. Desta vez sim, está na hora. Hora do rei esse é o nome de sua turnê de despedida. E em algum momento, o tempo é uma armadilha que você pode usar a seu favor. Porque sua diversão 83 lhe permite contextualizar.

Gilberto Gil acompanhado por uma grande orquestra@simon_canedo:

As imagens nas telas passaram por sua vida, sem os símbolos do infinito, mas nas espirais do tempo. “Tempo Rei” também foi uma das primeiras e, desde então, cada verso, cada imagem foi piscada.

Os olhos estavam voltados para Domingueños com “Eu so quero un xodó”; Para Bob Marley: “No Woman, No Cry” (português); Para Chico Buarque com o Cálice eles dividiram no início dos anos setenta. Como toda arte que busca rachaduras nos momentos mais difíceis, “Cálice” falava não só da taça, mas da censura que se ouve quando se ouve a palavra em português (cala a boca) e que se fez sentir durante os anos da ditadura brasileira.

“Que prazer estar aqui com vocês, mais uma vez em Buenos Aires”, foram suas primeiras palavras não ditas. Durante esta digressão de despedida, esteve acompanhado em palco por uma dezena e meia de músicos. A musicalidade da banda é uma sofisticação sublime em todas as paisagens sonoras do Brasil. Essas são as paisagens que Gill conjurou para se colocar diante do espelho quando chegou a hora de escolher as cerca de 30 músicas que ele se sentia mais representadas para a aposentadoria.

Mais de duas horas e meia de show. As seções de sopro, coro e cordas deram ao concerto de Buenos Aires os toques precisos que cada peça precisava. As marchas, um domingo no parque que termina em tragédia, o levam após o exílio a São Salvador (“De Volta à Bahia”), favela rebatizada em homenagem à viagem de Gil à África, quando viajou para um festival de cultura negra. Reggae (“Vamos fungir”, “Nos barracos da cidade”, “A novidade”) e rock (Punk da periferia) também tiveram os timbres certos.

A partir daí, Gil e sua equipe passaram para momentos intimistas (“Si eu quizer falar com Deus”) e depois ganharam impulso com outras músicas imperdíveis de seu repertório: “Estrela”, “Esotérico”, “Andar com fé” e a baiana minina que encerrou seu show na Air Arena, em Buenos Aires.

Charlie Garcia visitou Gilberto Gill antes do show do brasileiro em Buenos Aires@simon_canedo:

A sua banda, na verdade uma orquestra, adapta-se a todos os terrenos. E é família. Porque eles têm filhos e netos em suas fileiras que são responsáveis ​​pela condução dos carros tão bem que Gil pode se despedir em grande estilo.

“Levei muitos fatores em consideração antes de decidir fazer a última turnê. Abordei o mercado musical e as demandas físicas dos grandes shows. Quero continuar fazendo música em um ritmo diferente, mas primeiro teremos essa linda celebração com o público e minha família. Mude os velhos modos de viver”, disse ele em texto que postou antes de pegar a estrada. E a verdade é que a despedida que pretendia fazer está perfeitamente representada nesta digressão. O público agradeceu aplaudindo de pé e deu um grande abraço em Charlie Garcia nos bastidores.


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