Google avança na corrida da IA: acordo milionário focado em voz e nova busca personalizada

Ciência e tecnologia

Em um movimento estratégico para consolidar sua posição na liderança da inteligência artificial, o Google DeepMind garantiu a contratação de Alan Cowen, CEO da startup Hume AI, juntamente com uma equipe de engenheiros de elite. A operação faz parte de um amplo acordo de licenciamento que reforça a aposta da gigante de tecnologia em interfaces de voz capazes de compreender emoções humanas. Fontes próximas à negociação, que falaram sob condição de anonimato, confirmam que Cowen — que possui doutorado em psicologia — e seus colegas trabalharão diretamente na integração de inteligência emocional aos modelos de fronteira do Google.

A transação sinaliza uma tendência clara no Vale do Silício: a voz deve se tornar a interface primária para interação com clientes. A Hume AI, que já levantou US$ 74 milhões em financiamento e projeta uma receita de US$ 100 milhões para 2026, especializou-se justamente nisso. A empresa treina seus modelos com especialistas que anotam sinais emocionais em conversas reais, criando sistemas capazes de detectar nuances de humor na fala dos usuários.

Andrew Ettinger, investidor experiente que assume agora o comando da Hume AI, é enfático ao afirmar que o futuro da IA passa necessariamente pela voz. John Beadle, da AEGIS Ventures, reforça essa visão, destacando que a próxima fronteira não é apenas a inteligência bruta, mas a “ajuda geral”: a capacidade do modelo de entender como você se sente e responder de forma a facilitar seus objetivos, seja em dispositivos de consumo ou no suporte ao cliente.

A estratégia dos “Acqui-hires” e o cenário regulatório

O acordo com a Hume AI permite ao Google competir de forma mais agressiva com o ChatGPT da OpenAI, que já possui um modo de voz bastante realista, e ocorre em paralelo a uma parceria com a Apple para integrar o Gemini a uma nova versão da Siri. No entanto, a estrutura do negócio chama a atenção por diluir a linha entre uma parceria e uma aquisição convencional.

Essa prática, conhecida no mercado como “acqui-hire” (aquisição por contratação), tem sido utilizada por grandes empresas de tecnologia para absorver talentos de alto valor sem o escrutínio regulatório imediato de uma fusão tradicional. Em 2024, o Google DeepMind já havia pago cerca de US$ 3 bilhões para licenciar tecnologia da Character.ai. Movimentos semelhantes foram vistos na Microsoft, que contratou talentos da Inflection, e na Amazon, que recrutou a equipe da Adept. Contudo, a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) já sinalizou que começará a examinar essas transações com mais rigor.

Uma busca que conhece você: a chegada da “Inteligência Pessoal”

Enquanto reforça suas capacidades de engenharia nos bastidores, o Google também está transformando a experiência do usuário final. A empresa anunciou a expansão da “Inteligência Pessoal” para o Modo AI na Busca do Google, prometendo entregar respostas que não apenas acessam o conhecimento global, mas que são unicamente relevantes para a vida do usuário.

A partir de agora, assinantes dos planos Google AI Pro e AI Ultra poderão optar por conectar o Gmail e o Google Photos ao Modo AI de forma segura. A premissa é transformar a busca em uma ferramenta que “liga os pontos” entre os aplicativos do usuário. Segundo a empresa, o sistema utiliza o modelo mais avançado, o Gemini 3, para oferecer recomendações que se encaixam perfeitamente no contexto pessoal, eliminando a necessidade de explicar preferências ou planos repetidamente.

Do armário ao roteiro de viagem

A utilidade prática dessa integração se revela em cenários cotidianos. Durante testes internos, o sistema demonstrou capacidade de sugerir novos estilos de tênis baseando-se em compras recentes identificadas no e-mail, antecipando gostos que o próprio usuário talvez desconhecesse.

Para o planejamento de viagens, a ferramenta promete ser um divisor de águas. Ao cruzar dados de uma reserva de hotel no Gmail com memórias de viagens passadas no Google Photos, o Modo AI pode sugerir um roteiro familiar personalizado. Se o sistema notar muitas selfies tomando sorvete nas fotos antigas, ele poderá recomendar uma sorveteria clássica no destino atual, em vez de uma lista genérica de restaurantes.

No campo das compras, a personalização atinge outro nível. Se o usuário precisa de um casaco para uma viagem futura, a IA considera as marcas de preferência e verifica a confirmação do voo no Gmail para identificar o destino e a época — como Chicago em março, por exemplo. O resultado são sugestões de casacos à prova de vento que combinam com o clima e o estilo pessoal do viajante, atuando quase como um “personal shopper”.

Privacidade e disponibilidade

O Google enfatiza que a funcionalidade foi desenhada com transparência e controle no centro. A conexão com o Gmail e o Google Photos é estritamente opcional (“opt-in”) e o modelo não treina diretamente com a caixa de entrada ou a biblioteca de fotos do usuário. O aprendizado é contido a informações limitadas para melhorar a funcionalidade ao longo do tempo.

A empresa reconhece que, por ser uma tecnologia experimental, erros de contexto podem ocorrer, permitindo que os usuários corrijam conexões imprecisas. O recurso está sendo disponibilizado gradualmente como uma função do “Labs” para assinantes elegíveis nos Estados Unidos, focado em contas pessoais e excluindo, por ora, usuários corporativos ou educacionais do Workspace.