Letícia Gabriel escreve ao marido “goleiro Danilo”, dois anos depois do acidente com voo da Chapecoense

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“Eu acredito no reencontro. A nossa história não acabou aqui. Eu estou vivendo pelo nosso filho e por você. Se existe depois, quero te reencontrar.

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“E quando te encontrar, não sei o que vou fazer. Vou abraçar, vou chorar. Você foi um presente de Deus. Sempre vai ser o amor da minha vida. Com tudo o que aconteceu, aprendi que a gente tem que viver o hoje. Amanhã, ninguém sabe o que vai acontecer. Por que a gente faz planos, constrói sonhos, mas na verdade é Deus. É ele quem faz e quem desfaz.

Eu aprendi que a vida, independentemente do que a gente vive e da pessoa que foi embora, ela continua. Mas eu nunca vou esquecer o que você foi para mim. Você não vai estar aqui fisicamente, mas sempre vai estar em memória, no coração. O meu amor
por você vai ser eterno.

Amor, eu penso em você o tempo todo, toda hora. Do momento em que acordo até a hora em que vou dormir. Eu não te esqueço nem por um segundo. Você está sempre presente
em qualquer coisa que eu esteja fazendo.

“Nossa história não acabou”

Eu converso sempre com você. Não sei se você pode ouvir. Nunca ninguém voltou para falar como é depois da morte, né? Mas eu falo: ‘ai que saudade’. Às vezes, estou dirigindo, toca uma música e eu fico falando sozinha.

Eu sonho com você também. Parece tão real que não quero acordar, quero ficar ali mais um pouquinho. Gosto de sonhar porque é um jeito de matar a saudade.

Se eu falar para você que eu superei, não é verdade.” Eu não superei. Acho que nunca vou superar. Eu me acostumei a viver com aquele vazio, aquela dor. Sei lá até quando vai. Eu vou conviver com isso até o dia da minha morte. Mas a gente está aqui, tem que continuar.

Hoje, eu continuo pelo Lorenzo. A minha maior fortaleza é ele. E Deus também. Ele é a minha alegria, a minha vontade de levantar e seguir em frente, procurar ser o melhor para ele, estar bem para cuidar dele. Ele é tudo. O cheirinho dele, a bagunça dele, a conversa dele.

Quando ele está na escola fica tudo quieto, quando ele chega, é uma correria, uma alegria, um converseiro. Ele me move todos os dias.

“Eu queria tanto te contar sobre o nosso filho”

As novidades que o Lorenzo está falando, fazendo. Tudo nele se parece com você. O jeito de andar, as atitudes, o jeitinho… Ele conversa, brinca com todo mundo, se entrosa fácil. Igual a você. Você era tão brincalhão, amigo de todo mundo.

Ele já está com quatro anos e meio. O negócio dele é jogar bola. Esses dias ele comentou. ‘Quando o papai voltar de onde ele está, vai jogar bola comigo?’ Às vezes fica brincando sozinho como se você estivesse ali: ‘Meu pai que vai me ajudar’.

Agora, ele está no futsal. É só para jogar um pouquinho e gastar energia. São todos pequenininhos, jogam mais na linha, mas depois o professor reveza e cada um fica um pouquinho no gol. Ele é igualzinho a você. O jeitinho de sair, de cair, de agarrar a bola.
Até o jeito de andar.

Ele vai querer ser jogador. Eu tenho certeza no meu coração que ele vai querer. Eu vou fazer de tudo para isso porque eu sei que o seu sonho era que o Lorenzo tivesse a mesma carreira que você. Acho que ele vai querer ser goleiro. Até para te homenagear e
para continuar a sua história.

Amor, você continua muito presente na vida dele. Todo dia eu olho no celular as mensagens que o pessoal manda, as homenagens que fazem para você. Eu mostro para ele. Tem foto sua em casa para todo lado. Eu não escondo porque você se foi fisicamente,
mas vai estar sempre perto da gente em pensamento, no nosso coração.

Todo dia ele comenta alguma coisa sobre você.” Quando aconteceu tudo, falava que queria você, que estava com saudade, perguntava se o papai ia voltar. E eu sempre falando
que o papai estava no céu.

Agora, até a psicóloga falou que ele já está se conformando que você não vai voltar mesmo. Mas na cabecinha dele, ele fica imaginando, inventando histórias do que ele tem vontade de viver com você e não viveu.

Às vezes eu passo na frente de algum lugar e ele fala: ‘ah mãe, eu vim aqui com meu pai’. Mas na verdade ele não foi.

O prefeito aqui da cidade está fazendo uma praça com o seu nome. É perto da casa da minha mãe e a gente sempre passa perto.

Falei: ‘olha filho. A praça está ficando quase pronta.’ E ele sabe que vai ter o seu nome. Ele falou assim: ‘mãe, meu pai vai cair do céu e jogar bola ai?’ Eu achei tão engraçadinho. Eu fiquei imaginando você caindo do céu para jogar bola. É muito inocente.

“É um processo muito difícil”

“É um dia de cada vez, tem dia em que eu estou bem, tem dia que não. Tem dia que nem dá vontade de levantar. Aí eu vejo o Lorenzo pequeno, que depende de mim para tudo e falo: ‘é por ele’.

Você deixou um pedacinho seu aqui para mim e eu vou ter que zelar por ele até o dia em que eu for também.

Eu ainda faço tratamento por causa do acidente. É difícil, sabe? É uma dor assim que eu carrego todos os dias. É uma dor na alma que dói fisicamente. Sinto dor física. Quando a gente chora, dói, fica aquele espaço, aquele gelo no coração, no peito. Ela fica ali. Tem dia que ela dói mais, tem dia que ela dói menos. Mas continua ali. Acho que vai ser até o fim, vai sempre estar aqui, mas um dia vai parar de doer tanto.

Eu tento sempre chorar escondido do Lorenzo para ele não ver. Já chorei muito, mas ainda tem dia que a gente fica mais para baixo e não dá para segurar. Algumas situações doem mais. Uma festinha na escola ou algo que eu tenha que resolver. Se você estivesse
aqui, seria tudo diferente. Você estaria aqui, no lugar de pai que é seu lugar e sempre vai ser.

Agora, no fim de ano, mesmo já fazendo dois anos que você se foi, fica ainda mais difícil. nada têm mais graça. Não tem mais sentido. Ainda parece um pesadelo.”

É uma coisa inexplicável. É coisa de filme. Até hoje eu tenho esse sentimento, parece que eu estou vivendo uma história, um sonho, um pesadelo e que eu vou acordar a qualquer momento.

Por que não pode ser verdade tudo o que aconteceu. Quando aconteceu tudo, dava vontade de ir junto, sabe?” Não sei te explicar, é um sentimento que… meu Deus. É uma coisa muito difícil, da maneira que foi, o por que foi. A gente quer ir embora junto porque sente que não vai aguentar o que vai vir pela frente.

Quando eu voltei para cá nos primeiros dias e estava tudo acontecendo, um monte de coisas para resolver, eu ligava a TV e só se falava disso. Eu nunca pensei em tirar a minha vida, mas eu falava: ‘meu Deus, por que você não me leva junto?’.

É um sentimento, como posso dizer, de injustiça. Todos vocês estavam ali dentro a trabalho, felizes, todo mundo realizando sonhos, muitos de vocês estavam começando agora, construindo uma vida.”

“No começo, eu estava totalmente perdida”

“Não tem como nem explicar. Um dia a gente estava ali comemorando, no outro dia estava esperando você chegar da forma mais cruel. Eu estava perdida, vivendo aquele luto.

E todo mundo queria saber alguma coisa, algum detalhe, queria conversar para saber como eu fiquei sabendo. E eu não tinha a menor condição de falar porque estava fora de mim, anestesiada pela dor.

Foi muito dolorido todo o processo daquela semana. A gente não imaginava como ia ser, quanto tempo ia demorar. Eu fiquei esperando para ver o meu marido, o pai do meu filho, o meu amor chegar. E nem pude ver porque o caixão estava lacrado.

Não sei o que Deus tem reservado para mim. Mas foi a pior dor da minha vida. Até hoje perguntam se você foi para o hospital.” Quando aconteceu o acidente, começaram a falar na TV que você tinha sido resgatado. Falaram que tinham te levado para o hospital.

Aquele momento, eu tinha fé que você estava vivo. Mas depois, sei lá, alguma coisa me dizia que você não estava vivo. Eu tinha no meu coração uma certeza de que você não estava mais aqui. As pessoas até hoje me perguntam se você foi para o hospital, se você me ligou. Por que  saiu que você tinha me ligado. Eu e você sabemos que isso não aconteceu. Não aconteceu. Você não me ligou. Nem iria ligar. Meu Deus, uma pessoa que sofreu um acidente de avião falar no telefone? Eu queria muito que você tivesse ligado. Seria um sinal que você estaria bem. No começo, isso me chateou muito, porque é mentira e me machucava. Mas agora não faz mais diferença porque eu sei o que realmente aconteceu.

“Não, não, eu ainda não aceito.

Não sei quanto tempo vai demorar para aceitar. Todo dia eu amanheço com a mesma pergunta: ‘por que meu Deus? Por que tem que acontecer isso?’ Muitos porquês. São perguntas que eu não vou ter uma resposta concreta.

Depois, vi que Deus não queria levar um monte de pais de família, um monte de meninos jovens em uma morte tão trágica. Não queria ver esse monte de famílias partidas ao meio do jeito que foi. Então, pedi até perdão porque Ele não queria nada disso.

Foi um erro humano, uma ganância e isso me revolta. Mas eu tenho que aceitar porque não tem volta. Eu e Deus fizemos as pazes, agora estamos de bem, na memória de Deus.

Depois que tudo aconteceu, eu voltei para Arapongas-PR.” Meus pais moram aqui, eu nasci aqui, cresci aqui e foi aqui também que eu te conheci. Por que pai e mãe são tudo na vida da gente. E só de estar perto deles eu sinto uma segurança. E eu acho que ficar em Chapecó seria mais difícil por tudo que aconteceu. Tudo lá me lembra você. Não que aqui não lembre também, mas lá ia ser mais difícil.

Eu fico 24 h em função do Lorenzo. Ele é meu companheirinho, em todo lugar está junto. Ele também não consegue ficar sem mim. Eu saio um pouco para fazer um trabalho voluntário na igreja e, às vezes, não o levo porque ele não para. Não deixa fazer minhas
coisas. Mas não posso ficar muito tempo fora de casa porque ele já fica perguntando para o meu pai e para a minha mãe: ‘Cadê a mamãe?’. Eu saí sozinha uma vez e ele chorou bastante. Eu quase desisti porque eu tenho dó. Ele pergunta se eu vou voltar: ‘você
vai voltar, mamãe?’ Porque você foi e não voltou, né? O medo dele é também o de me perder.”

“O que penso para o meu futuro”

Danilo, meu amor, você pode querer saber como vai ser a minha vida daqui para a frente. A nossa vida virou de ponta cabeça da noite para o dia. Ainda estou me organizando sem você aqui. Mais para a frente, quero fazer uma faculdade. Mas quero esperar o Lorenzo crescer um pouquinho mais, uns dois anos.

Talvez o estudo tome um pouco do meu tempo e, no momento, sinto que tenho de ficar com ele. O meu tempo tem que ser do nosso filho. Mas eu quero estudar, fazer um curso para, pelo menos, ocupar a minha mente. Talvez arquitetura. Você sabe, eu gosto
dessas coisas de decoração.

No momento, eu não me vejo com outra pessoa. Não sei o que Deus tem reservado para mim, mas não tenho esse pensamento. Hoje não tem espaço para ninguém e não sei quanto tempo isso vai durar.

Minha prioridade sempre vai ser o nosso filho. Eu quero muito que Deus me dê saúde e força para cuidar dele. Eu quero criar o Lorenzo, quero que ele se torne um menino bom, que não tenha maldade, que seja humilde, digno, feliz com as coisas simples da
vida igual a você. Ele com certeza vai se espelhar ainda mais em você.

Fonte e Reprodução: Uol Esportes